Quinta-feira, Julho 02, 2009



PRA QUEM É DA CONFRARIA: MÁRCIO-ANDRÉ

O Irajá continua surpreendendo! Primeiro, foi a “Academia Irajaense de Letras”, com hino, fardão e até (dizem) chá de quebra-pedra, às quintas-feiras, pra limpar os rins dos veneráveis acadêmicos. Depois, a surpresa veio na antítese. Com uma iniciativa de arte, literatura e pensamento de forte perfil vanguardista, chamada “Confraria do Vento”, irradiada a partir da revista eletrônica e da editora de mesmo nome.

Surgida em 2007, a Confraria tem como um de seus fundadores o Marcio-André, poeta, músico, programador de som, performer, tradutor, ensaísta e editor da revista Confraria. Nascido lá mesmo no Irajá, em 1978, e formado pela UFRJ, o M-A acabou se tornando nosso chapinha, via internet. E via ECT também, pois semanas atrás nos enviou seu último trabalho, o livro Ensaios radioativos.

Por força desse livro, Márcio-André concedeu uma entrevista ao Fórum de Literatura Brasileira, site da Faculdade de Letras da UFRJ (www.forumlitbras.letras.ufrj.bras) na qual mete a seguinte bronca. Vejam!

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ENTREVISTADOR: “Por causa do capítulo ‘Proposta para se pensar as nuvens’, no qual se fala do amor pelas coisas ordinárias, você foi tachado de provinciano ao enaltecer as casas suburbanas, destacando-lhes a arquitetura espontânea, sem a uniformidade habitual dos prédios da Zona Sul. Como avalia tal crítica?

MÁRCIO-ANDRÉ: “A cidade do Rio de Janeiro chegou a um limite no qual parece incapaz de produzir um pensamento fresco ou renovador. Excetuando-se alguns intelectuais indiscutíveis de uma geração anterior (Joel Rufino, Nei Lopes, Milton Santos, Costa Lima, Silviano, Emanuel Carneiro Leão, Eduardo Portella, para citar alguns), me parece que a intelligentsia carioca, sobretudo a geração mais jovem, tem se valido da retórica do saber unicamente como adorno para a manutenção de seu lugar na aristocracia intelectual. Num misto de erudição de livraria de Zona Sul e cultura televisiva dominical, eles vão ocupando os canais por meio dos jogos de influência. E sem um engajamento e uma reflexão profunda nas e das coisas, resta somente para eles a reafirmação do senso comum – pior, do seu próprio senso comum. Eles são completamente incompetentes para pensar a cidade, uma vez que o seu papel de intelectual é um embuste atribuído hereditariamente de geração em geração, através dos vícios e segregações que tornaram a cidade o que ela é. Não deixa de ser simbólico o fato de ser filho de um grande figurão a pessoa responsável pela crítica que você menciona. Há hoje uma geração de “filhos de” que, atrelada à geração dos “amigos de”, “primos de”, “cunhados de” e “viúvas de”, promove uma verdadeira suruba de troca de influências com o único propósito de não largar o osso, num país que sequer fez uma reforma agrária ou social (é uma lógica maquiavélica – fundamento de uma segregação invisível, onde o próprio segregador se recusa ou finge não percebê-la). Sobre a falta de bom senso e do que dizer: ora, não saber o que dizer resulta e já é resultado de um não saber ler. Obviamente é natural que quem me fez tal acusação tenha vestido a carapuça, irritando-se com um texto que questiona a imagem tradicional da “cidade maravilhosa”, o legado que seus pais e compadrinhos lhe deixaram como herança. E qualquer um que proponha uma outra cidade, uma cidade sonhada de dentro para fora, uma cidade que se queira outra coisa que não a pseudo-Paris de botequins-butiques do Leblon, será tachado de provinciano. Obviamente, há outra questão também: o fato desse texto vir de um cara sem ‘pedigree’que, não fazendo parte de seu círculo de relações, sequer socioeconomicamente, não frequentando suas festinhas, não compactuando com sua cosmovisão deslocada da realidade que lhe bate à porta, ouse refletir bem além do que ele possa compreender. O que se converte numa grande demarcação de território, uma vez que qualquer postura política por parte dessa falsa classe de intelectuais não defende absolutamente nada de que não possa tirar proveito. Entendo esse ataque como uma forma de disfarçar a própria incapacidade de se renovar. E note que estamos falando de alguém que, graças a seu círculo de influência, adquiriu status de “intelectual” em pouquíssimo tempo, com textos semanais que debatem a etimologia dos livros da Danuza Leão ou fazem profundos questionamentos em torno do direito à privacidade do craque Ronaldo”.

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É, malandragem!... O Irajá atual não é tão longe como dizia a marchinha cantada pelo Jorge Veiga em 1947. Nem tão inocente que obrigue a transgressora “Kátia Flávia” a buscar Copacabana como plataforma de lançamento de seu “Exocet Calcinha” (alguém ainda se lembra?)




Segunda-feira, Junho 29, 2009



MICHAEL JACKSON NO HOSPITAL DOS SERVIDORES

Em 1970, o Boletim do Centro de Estudos do Hospital dos Servidores do Estado, um órgão público federal sediado no Rio, publicava uma monografia, assinada por um grupo de médicos de lá, e intitulada “Nariz negróide (correção cirúrgica)”. E, no texto, os autores assim justificavam a suposta utilidade social de seu trabalho:

“...o crescimento da população branca é indiscutível e se faz em números alentadores em todo o Brasil. [...] GRIFAMOS.

O crescimento da população mestiça fará com que ela chegue um dia ao branco, tendo partido do branco (...)

Por tudo isso, quanto mais o mestiço se sentir afastado do elemento negro, maior será a sua vontade de retirar da face e, consequentemente do nariz, os estigmas que permitam lembrar a sua origem, fato que redundará, como é claro, numa tarefa grande para aqueles que se dedicam à cirurgia plástica, enfrentando o problema social já grande e que crescerá com o correr do tempo.

Feita, a justificativa, os cirurgiões chegavam à prática, ensinando:

“Procedemos a osteotomia, aumentando o dorso do nariz negro e mudamos mais para dentro da aza [sic] nasal.

Com isso, retiramos os caracteres típicos do nariz negro e lhe damos aspecto de nariz branco”.

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Este texto, lastimável em todos os sentidos, foi extraído de nosso livro “Bantos, malês e identidade negra” (Belo Horizonte, Autêntica, 2008); e é aqui postado como um réquiem à memória do grande e atormentado artista afro-americano Michael Jackson, recentemente falecido.




Quinta-feira, Junho 25, 2009



SAI, SAI, BALÃO! SAI, SAI, BALÃO!

Ontem, em plena madrugada de São João (noite de mistério e afromagia, do Caribe ao Prata), o som do funk lá fora, grifando o compasso da “quadrilha”, marcada, aos berros, por um dos 3.567 diáconos daqui da vizinhança, nos trouxe a nostalgia das velhas festas juninas.

No céu estrelado da memória surgiu, então, o velho balão de papel fino, com estrutura de “flechas” de bambu, simples artefato que subia inflado pelo ar aquecido de uma bucha acesa em sua boca. De enfeite, apenas algumas singelas lanterninhas, que nunca chegavam em último lugar. E, de descarga, quando havia, só umas tímidas bichinhas, que não tinham a desenvoltura nem o engajamento político das enormes de hoje.

Outrora (e bota outrora nisso), de acordo com sua forma, os balões eram tipificados como “caixa”, “cara” (que procurava reproduzir uma cabeça humana), “charuto”, “dado”, “estrela”, “pião”, “tangerina”, etc. Às crianças era reservado o pequeno “balão japonês”, industrializado e vendido em lojas. Estão aí o Celso Pavão, o Gilberto Nascimento e o Marco Makiba, nossos prestimosos colaboradores na pesquisa do “Dicionário da Hinterlândia Carioca”, que não nos deixam mentir.

Mas o que Gil, Pavão e Makiba certamente não sabem é que, ali pelo final da década de 1940 ou no início da seguinte, em Irajá, no Pau-Ferro, na Rua Honório de Almeida, o operário metalúrgico da Casa da Moeda, Dayr Braz Lopes – nosso super-habilidoso e saudoso irmão –, conseguiu a façanha de alçar aos céus suburbanos um balão que reproduzia fielmente um elefante, com bocas nas quatro patas, e com o ar quente inflando inclusive a tromba. Se não me falha a memória, era um elefantinho azul, com sela e arreios de montaria, em uma cor contrastante, talvez marrom. Que beleza!

Mas o sonho acabou. E aí, com o crescimento da cidade, e extrapolando da época junina, o balão passou a ser um elemento de perigo, principalmente pelo gigantismo que os confeccionadores passaram a imprimir às suas produções. Causadores de incêndios e de outros malefícios, eles acabaram por ser proibidos.

Foi assim que, no último dia 18, a imprensa noticiou a denúncia oferecida pela promotora Márcia Velasco, da 13ª Promotoria de Investigação Penal do Ministério Público, contra um grupo de baloeiros. Acusado de causar um incêndio de graves conseqüências, inclusive com morte, em Vila Valqueire, o grupo, segundo a denúncia, teria praticado o crime não por negligência, imprudência ou imperícia (circunstâncias atenuantes da culpabilidade), mas com “dolo eventual” (intenção criminosa, embora de sucesso imprevisto), já que, ao soltarem o balão, os infratores teriam assumido o risco de provocar o acidente.

Apesar disso, os baloeiros, agora até organizados em “confrarias”, não estão nem aí pro que pode acontecer quando cai um balão. Se o dolo é eventual, indireto, indireto, determinado, indeterminado, azar o nosso! Quem mandou ser aluno do Oscar Stevenson, (catedrático inflado de vaidade, como um balão penal), e não entender bulhufas daquelas palavras difíceis que ele soprava na nossa bucha?




Segunda-feira, Junho 22, 2009



SOB A ALTA PROTEÇÃO DE SANTA CECÍLIA

O Velhote do Lote também tem amigo vinte anos mais novo. E roqueiro.

Um deles é o querido Mauro Santa Cecília, parceiro do Frejat, colunista do JB, e escritor da pesada.

O grande “Santa” (bem aí na foto) é autor, entre outros, de duas coletâneas de poemas (A todo transe, 1997, e Olho frenético, 2005) e um romance eletrizante, Cão de cabelo, publicado em 2007 pela Língua Geral, que está vindo por aí, nas suas águas lusas, com o nosso Mandingas da Mulata Velha na Cidade Nova.

E esse tremendo escriba acaba de nos mandar a seguinte letra. Leiam, caros visitantes!

“Grande Nei,

Achei o disco sensacional! Músicas espertíssimas, de humor fino e poesia irresistível. Seu samba é único, culto e inteligente, mas sem perder a ternura, a malandragem e o suíngue. Tem rodado direto por aqui. Difícil até destacar faixas, mas arrisco a própria Chutando o balde (um manifesto), a cubana Saracuruna-Seropédica, a literária Deusas e devassas, a verde e amarela Pombajira Halloween e a data vênia de breque Águia de Haia. Parabéns!”

O Lote todo ficou muito feliz! Pois não é qualquer músico que lança um CD e recebe, assim, de graça, a proteção de SANTA CECÍLIA.

Valeu, Maurão!




Sexta-feira, Junho 19, 2009



NEI LOPES MOSTRA O "DICIONÁRIO"
E ABRE O VERBO COM PASQUALE CIPRO NETO


TV CULTURA - PROGRAMA "NOSSA LÍNGUA"

Data: 22/06 (Segunda - Feira)

Horário: 19h30min.

Reprise 01: 27/06 (Sábado), ás 11h30min.

Reprise 02: 01/07 (na madrugada de Terça para Quarta-Feira), ás 02h30min.




Quarta-feira, Junho 17, 2009



LIMA BARRETO E A REVUE DES DEUX MONDES

Escarafunchando, aqui, a História dos subúrbios cariocas, chegamos ao nome “Licínio Cardoso”, de uma conhecida rua em são Francisco Xavier e de um bonde famoso, o 79, que vinha até Cascadura. Mas aí, como todos os caminhos suburbanos vão dar em Lima Barreto, chegamos à historinha que agora relatamos, da forma seguinte.

No fim do século XIX, na Escola Politécnica do Rio, o aluno Afonso Henriques de Lima Barreto, experimentava seguidas reprovações em Cálculo Diferencial Integral, matéria cuja denominação era abreviada para “Cálculo”. Segundo seu biógrafo Francisco de Assis Barbosa (A vida de Lima Barreto, Civilização Brasileira, 1964), o jovem Lima faltava muito às aulas, pois não se interessava pelas ciências exatas, preferindo ler e estudar Filosofia.

Entre seus professores, o futuro romancista nutria especial afeição por Oto de Alencar, que apesar de ser professor de Geometria, possuía requintado gosto literário, cultivava a música e ministrava apreciadas aulas, abrindo novos horizontes aos alunos. Além disso, segundo Barbosa, o professor Alencar era adversário do Positivismo, doutrina que dominava a inteligência brasileira naquele momento, sendo mesmo a base da ordem republicana recém instaurada.

Do outro lado dessa linha de afeição e reconhecimento estava o professor Licínio Cardoso, positivista “de carteirinha”, como se diria hoje, e que se orgulhava de seu rigor para com os alunos, tendo um gosto um tanto sádico nas centenas de reprovações que sentenciava. Daí, o ódio que lhe votava a maior parte dos alunos, tendo, inclusive, entre os reprovados, um que chegou ao ponto de ameaçá-lo com um revólver; e outro que tentou o suicídio, atirando-se de uma das sacadas do prédio da Escola.

Reprovado várias vezes, o aluno Afonso Henriques atribuía seu insucesso a perseguição, principalmente da parte do odiado mestre. “Lima Barreto – escreveu Assis Barbosa – não tinha dúvida de que estava sendo perseguido por Licínio Cardoso, convicção esta que os anos só fizeram confirmar”.

Esse professor, “que estudou longos anos a alta matemática para curar pela homeopatia” – como glosado em Vida e Morte de M. J.Gonzaga de Sá, lançado em 1919 – foi o grande fantasma da vida do fantástico escritor carioca, sendo certamente responsável, pelo menos em parte, pelo tormento que foi a existência de Lima, até seu término em 1922. Pois, agora, chegam às nossas mãos informações sobre uma outra vida, a de um filho de Licínio Atanásio Cardoso, o que nos induz a uma profunda interrogação diante dos mistérios da Existência.

Vicente Licínio Cardoso, nasceu em Botafogo, em agosto de 1889, mesmo ano em que, em fevereiro, prestando exames de segunda-época, o jovem Lima Barreto era aprovado em Geometria e reprovado em Cálculo, o que tornaria a ocorrer nos três anos seguintes.

Em 1915 – ano em que, já conhecido como escritor, mas também já tendo amargado sua primeira experiência no Hospício, Lima começa a publicar em folhetins, no jornal A Noite, seu romance Numa e a Ninfa –; nesse ano, Vicente pretende candidatar-se a professor da escola Politécnica, mas o concurso é adiado. Dois anos depois (quando Numa e a Ninfa sai em livro), o mesmo Vicente presta exames para o magistério do curso de História da Arte da Escola de Belas-Artes, mas o concurso é anulado por irregularidades.

Finalmente, em 1927, Vicente Licínio Cardoso torna-se catedrático da Escola Politécnica, na cadeira de Arquitetura Civil, Higiene e Saneamento das Cidades, “exercendo o magistério com dedicação até 1931, quando tomou a decisão pessoal de deixar o convívio humano, talvez ocasionado por um estado depressivo (...), no apartamento nº. 13 do Hotel Paissandu, no Rio de Janeiro” (cf. Sidney G. M. dos Santos e Jader de Medeiros Brito, in Dicionário de Educadores do Brasil, Ed. UFRJ, 1999, pág. 476).

Observemos, então, que, quando Vicente Licínio Cardoso cometeu o seu gesto de desespero, Lima Barreto já transpusera os umbrais da Eternidade fazia nove anos. E, ao contrário do filho de seu aludido algoz, e apesar do tormento que fora sua vida terrena, morrera tranqüilo, sentado, “abraçado a um volume da Revue des Deux Mondes”, segundo sua biografia.




Terça-feira, Junho 16, 2009



Deu na Folha:

A SÉTIMA CORDA
Ruy Castro


RIO DE JANEIRO - Quando algo do dia-a-dia me intriga ou perturba, e faltam-me as palavras para definir tal incômodo, não vacilo: apelo para os mestres. Eles podem estar nos livros, nos discos ou nas rodas vadias. Não por acaso, Nei Lopes freqüenta todos esses veículos. Neste momento, seu novo CD, “Chutando o Balde”, é que me tem valido.

Como Nei, acho ridículo que as pessoas usem o boné com a pala para trás. Coisa de americano débil, claro, mas por que a moda tinha de pegar aqui? Agora já sei. Em “Pala pra Trás”, ele esclarece: “A pala é a maior proteção/ Pros olhos e a visão/ Quando a luz é demais/ A não ser que a sensibilidade / Em Vossa Majestade/ Venha de trás”.

Também como Nei, sou dos que se envergonham de ver certos brasileiros - “fake/ tudo fashion, tudo teen” - comemorando o Halloween. Mas só ele imaginou uma cena em que pseudo-darks e góticos, brincando de chamar coisa ruim num apê de cobertura, invocam justamente quem não queriam - de repente, “a cigana/ rodou a baiana/ riscou fogo no estopim/ Pombajira baixou no Halloween”.

E, sempre como Nei, não me conformo ao ver a música popular atrair palavras ingênuas para fora do dicionário e corrompê-las com inglórios novos sentidos. Ele corrige: “No meu dicionário, roqueiro é aquilo/ Que fica lá em cima da rocha/ E fanqueiro é o cara/ Que vende tecido/ De linho e algodão/ Pra mim, sertanejo/ É, antes de tudo, um forte/ E axé é força e boa sorte/ No meu dicionário/ Galera é apenas uma embarcação”.

Em outro grande samba do disco, Nei resume tudo ao falar dos oportunistas pouco à vontade dentro do terno de linho e do pisante branquinho, que batem o pandeiro “com mais ódio que amor” e, como só são sambistas porque essa agora é a onda, podem acabar se enforcando na sétima corda. (Folha de São Paulo, 13.06.2009, pag. 2)




Sexta-feira, Junho 12, 2009
Segunda-feira, Junho 08, 2009



UM MESTRE ELEGANTE DO SAMBA

Carlão Elegante batia à máquina com os dez dedos. Muito rápido. E esses dedos manejavam também o violão com muito ritmo, de um modo muito pessoal, batucando nas cordas e fazendo, de vez em quando, uma espécie de “rasqueado”.

Esbelto, espigado, musculoso, carapinha cheia, encimada por um topetinho à moda do Zózimo, centeralfe do Bangu e da seleção brasileira de 58, Carlão era também bom de bola. Bom e elegante – como Zózimo – defendendo a camisa 5 em vários times da Vila da Penha e do Beco da Coruja.

Sua destreza na datilografia parece ter vindo de um emprego público, talvez em um dos IAP’s na época getulista. O domínio do violão foi adquirido com um certo Oscar, mestre da rapaziada local. E o absoluto controle da bola veio certamente do samba, onde “brincava nas onze”. Principalmente como cantor, compositor... E galã.

Sim, era galã o Carlão! Maneiroso, delicado, bem-falante, era o típico malandro carioca. Que, no auge de sua carreira, inclusive, teve como uma de suas grandes apaixonadas a filha de um importante escritor, cronista mineiro de Ipanema.

Em 1969, Carlão está lá firme, com seu vozeirão, solando o prefixo do recém-criado Conjunto Lá Vai Samba, composto por Délcio Carvalho: “Portanto, lá vai samba/ lá vai samba, pra valer./ Alegria pede um samba/ se estou perto de você...”. E quando ele canta, as vozes do violonista Everaldo Cruz, do cavaquinhista Jones, do cuiqueiro Baianinho, e do surdista Samuel, vêm junto, num coral bonito. E o Lá Vai Samba brilha nas programações sambísticas que começam a trazer o velho ritmo, em sua forma mais harmoniosa, de novo ás luzes, em todos as boas bocadas cariocas e da Baixada.

É nessa que, mal iniciada a década de 1970, o nosso galã está no ambiente dos music-halls da Zona Sul, onde um dos destaques, pela democracia de sua programação, que privilegia, sem preconceitos, a boa musica, é a boate Monsieur Pujol. Lá, Carlão atua ao lado de Dona Ivone Lara e outros grandes sambistas. E é notado pelo diretor de cinema Iberê Cavalcanti.

Conversa vai conversa vem, começa a nascer ali o projeto de um filme bacana, com um elenco só de artistas negros. Mas enquanto as coisas não se definem, Carlão está no samba, defendendo com força o samba-enredo que fez para sua escola, a Unidos de Lucas, o qual a certa altura diz: “Muçurumim, nagô, omolocô, congo e guiné...”. E enquanto o carnaval não chega, a escola indica o grande artista para disputar, em honra de suas cores, o cobiçado título de “Cidadão Samba”.

De 1936 a 1950 -- quando foram eleitos Mano Elói (Deixa Malhar, da Tijuca), Paulo da Portela, Antenor Gargalhada (Azul e Branco do Salgueiro), Seu Alfredo da Serrinha, Amor (do Estácio), Cachinê (Depois Eu Digo, do Salgueiro), Paulo Brazão (Vila Isabel) e Cartola (Mangueira) – a eleição do “Cidadão Samba” era feita pelo voto popular através de jornais. Entre 1958 e 1964, a escolha passou a ser feita pelo maior número de votos vendidos, destacando-se nessa fase o sambista e jornalista João Paiva dos Santos, parece que plantonista no antigo Pronto Socorro (Hospital Souza Aguiar), figura emblemática na abertura dos desfiles de carnaval, com seu chapéu chile, sua faixa a tiracolo e o pandeirinho na mão.

A partir de 1965, passou a ser eleito o candidato que, diante de um júri especializado, mostrasse maior talento ao cantar (sendo julgado por dicção, interpretação e ritmo); sambar (nas formas tradicionais do “miudinho” e do “machucadinho”); tocar três instrumentos do samba, com ritmo e precisão; e falar, expondo suas idéias com clareza e expressividade. São dessa fase, os grandes “cidadãos samba” Tião Copeba (Vila Isabel); Bidi (Imperatriz); Tião do Salgueiro, Jorginho Pessanha (o primeiro “Jorginho do Império”) e Zé Kéti.

Pois o título de Cidadão Samba de 1976 foi merecidamente conquistado por Carlão Elegante, que brincava nas onze. E o samba-enredo de Lucas também foi ganho por ele, na força dos orixás.

No ano seguinte o negão se torna ator de verdade. Depois de uma ponta no filme “Crueldade Mortal”, de Luís Paulino, estrelado por Jofre Soares e Maurício do Valle, lá está ele, ao lado de Elke Maravilha, Grande Otelo, Zezé Motta, Ivone Lara, Antonio Pitanga, Vera Manhães e outros, mostrando seu talento no filme “A força de Xangô”.

O orixá estava mesmo de ronda. Tanto que, três anos após o filme, Carlão Elegante lançava pela gravadora CBS seu primeiro LP, Um “Cidadão Sambista” aparecendo na capa (foto acima) todo bacana, o violão no ombro, como um legítimo instrumento de trabalho, um machado de Xangô. E a coisa não parava, pois nesse mesmo ano, entre janeiro e agosto, quase todas as noites Carlão invadia os lares de todo o Brasil na pele do Teodoro, misto de cantor e segurança da gafieira da Ana Preta, na te­le­no­ve­la Pai he­rói, na Rede Globo de Televisão.

Mas história desse artista singular acaba por aí. E de maneira nem um pouco feliz. Mas no meio dela, ali mais ou menos pelo início da década de 1970 – nas rodas de sueca, de samba e de cerveja da Rua Padre Manuel Rodrigues, a alguns metros da Travessa da Amizade, nas cercanias do velho Largo do Bicão, hoje Praça Rubey Wanderlei – começava a de outro grande sambista, seu vizinho e possível discípulo. Porque, além de Candeia, Ataulfo e Martinho, o grande e também já saudoso Luiz Carlos da Vila tinha, sim – para quem conheceu bem os dois – muito da elegância, da musicalidade, da verve do nosso saudoso amigo e parceiro Carlão Elegante, falecido com cerca de 58 anos de idade em 1994.




Quinta-feira, Junho 04, 2009



O RACISMO, QUEM DIRIA, JÁ MOROU NO IRAJÁ

Às voltas aqui com uma vasta pesquisa sobre a hinterlândia (antigos subúrbios e zona rural) carioca, topamos com o nome de um ilustre morador do nosso Irajá. Vejam:

“A propriedade do Sr. Braulio, limitava-se com os terrenos do Sr. Cincinato Braga, residente em Irajá, figura de evidência na política na década de 20, tanto que era visitado, segundo pesquisa no Rio Ilustrado-1937, cortesia da Sra. Norma Zangrando Pereira, pelo Exmo. Presidente da República, Dr. Washington Luiz Pereira de Souza [ Washington Luiz], sempre o visitando na sua vivenda; e sendo o prefeito Antonio Prado Junior, amigo de ambos [gestão de 15/11/26 a 23/10/30], tornou-se triângulo político relembrado e considerado e que, segundo Sr. Antonio José Braulio, na ocasião de sua entrevista ao Rio Ilustrado-1937, como sendo o mais provável motivo para o calçamento de muitas ruas do bairro (www.agrocon.sites.uol.com.br/familia.html) “

Corremos, então, a buscar maiores detalhes desse nosso vizinho (vizinho, sim, pois a família Lopes está lá, no mesmo lugar, desde 1917, e só não é citada entre os históricos pioneiros, porque seu chefe era um mulato, trabalhador braçal, nascido em fevereiro de 1888); e encontramos:

“Cincinato César da Silva Braga (Piracicaba, 7 de julho de 1864 — Rio de Janeiro, 12 de agosto de 1953) foi um político brasileiro. Formou-se na Faculdade de Direito de São Paulo em 1886, tendo logo após exercido o cargo de promotor público na Comarca de São Carlos. Começou sua carreira política elegendo-se deputado estadual e depois federal em sucessivos mandatos pelo Partido Republicano Paulista.Apoiou a campanha civilista de Rui Barbosa. Durante o governo de Artur Bernardes foi presidente do Banco do Brasil.Escreveu importantes obras sobre a economia paulista e brasileira, entre elas: "Magnos Problemas de São Paulo".

Mas, aí – viva a boa memória! – lembramos de uma notícia meio esquisita que consta de um de nossos livros e que é a seguinte: “Em 28 de julho de 1921, Andrade Bezerra e Cincinato Braga propuseram ao Congresso um projeto de lei cujo artigo 1º dispunha: “Fica proibida no Brasil a imigração de indivíduos humanos das raças de cor preta” (cf. José Honório Rodrigues, “Brasil e África: outro horizonte”, Rio, Civilização Brasileira, 1964, pag. 89).

Pois é isso, Amigos! O racismo (na foto acima, com um bigodinho suspeito e mãos candidamente cruzadas sobre o baixo ventre) também já morou na hinterlândia carioca.




Segunda-feira, Junho 01, 2009



COM A PALAVRA, JORGE DA SILVA.

Dias atrás, chegava ao Lote um e-mail circularizado no qual um militar, assinando-se apenas “Marinho”, fazia o seguinte comunicado, que aqui transcrevemos sem ratificar a veracidade da informação. Dizia ele o seguinte:

Que o quartel onde trabalha teria recebido, naquele dia, para fazer parte do seu acervo de livros que devem ser lidos (sic), o "Não Somos Racistas", do jornalista Ali Kamel, o qual, segundo ele foi reeditado pela editora Biblioteca do Exército (BIBLIEX). E que fora informado de que todos os quartéis do Exército no Brasil iriam também, receber o livro para ser lido pelos militares.

Opinando sobre o fato, “Marinho” acrescentava: “Sou militar, amo a minha profissão, entretanto, não posso me calar diante de um retrocesso financiado pelo dinheiro público, pois esses livros editados e doados aos quartéis têm financiamento do dinheiro público e demonstra uma incoerência com as Políticas Públicas que reconhecem a existência, indubitável, do racismo no Brasil e procura adotar ações para rechaçar qualquer forma de discriminação étnico-racial. Não posso deixar que pessoas, de intenções desconhecidas, aproveitem a condição do nosso glorioso Exército, o qual eu tenho imenso orgulho de envergar sua farda, para desconstruir fatos e desinformar pessoas sobre a verdadeira realidade do nosso País. Todos ganham quando há debates sobre como solucionar os verdadeiros óbices da grande Nação brasileira, entretanto para que haja os debates, têm que ser conhecidos os verdadeiros problemas e não camuflados e velados. Por fim, espero que alguém amenize o retrocesso que essas doações com dinheiro público podem causar a Nação brasileira”.

O Lote é absolutamente civil, como todos sabem. Então, resolvemos ouvir sobre assunto nosso fraterno amigo o professor Jorge da Silva (na foto, com o microfone), cujo currículo não deixa a menor dúvida.

Um dos mais respeitados cientistas políticos da atualidade brasileira, Jorge, um afrocarioca nascido, como gosta de dizer, “numa das encostas do Morro do Alemão”, fez car­rei­ra na es­co­la de ofi­ciais da Polícia Militar flu­mi­nen­se, até atin­gir o pos­to de co­ro­nel e ocu­par os car­gos de che­fe do Estado-Maior e sub­se­cre­tá­rio de Esta­do, nos ­anos de 1990. Formado em Direito, pós-gra­­dua­do em Literatura Inglesa e Ciência Polí­ti­ca e pro­fes­sor uni­ver­si­tá­rio, é au­tor de di­ver­sas mo­no­gra­fias so­bre vio­lên­cia ur­ba­na, bem co­­mo dos li­vros Controle da cri­mi­na­li­da­de e se­gu­ran­­ça pú­bli­ca na no­va or­dem cons­ti­tu­cio­nal e Di­rei­tos ci­vis e re­la­ções ra­ciais no Brasil (1994). Em ­abril de 2000, em ­meio a gra­ve cri­se na cú­pu­la do go­ver­no, mo­ti­va­da pe­la vio­lên­cia ur­ba­na, foi no­mea­do coor­de­na­dor de Segurança, Justiça e Cidadania do es­ta­do do Rio de Janeiro. E em 2004 as­su­mia o car­go de se­cre­tá­rio es­ta­dual de Direitos Humanos do Rio de Janeiro.

Diante de nossa consulta, o professor Jorge, com o equilíbrio que lhe é peculiar, nos disse o seguinte:

“Só para lembrar: O Sr. Ali Kamel é nada menos que o Diretor Executivo de Jornalismo da Rede Globo de Televisão, e assíduo articulista do jornal O Globo, jornal que tem utilizado para se opor de forma tenaz à luta dos negros por igualdade no Brasil. Não quero incorrer no equívoco de tomar o que circula na internet como verdade a priori, porém, se a mensagem é realmente verídica, e se realmente reflete o que aconteceu estamos diante de uma situação, no mínimo, estranha. Aparentemente, a preocupação do Sr. Kamel é com a divisão da sociedade brasileira, que considera unida e harmoniosa. Mas há que perguntar: o que divide mais: a luta dos negros ou a forma como ele difunde as suas verdades? Mais, pergunta-se: a sua posição e a forma como se utiliza dos veículos mencionados são uma decisão pessoal ou refletem a posição das Organizações Globo, sendo ele apenas o intelectual orgânico das mesmas? É preciso que este ponto fique claro”.

Jorge da Silva sabe o que diz.